Tuesday, October 03, 2006


Comecei a garatujar no papel. Todos aqueles signos eu conhecia. Eu entendia muito bem o que aquilo queria dizer. Estava tudo muito claro e evidente. Os traços firmes e resolutos. Ali eu denotava todo o meu conhecimento, toda a minha sapiência estentórea. Convencia-me de que aquela era a melhor maneira de encaminhar
todo aquele aparatoso conteúdo. As palavras iam saindo enfileiradas, de modo que toda a sintaxe perfilava-se em sua hierárquica composição. Os verbos sotopostos ou emparelhados em forma de sanduíche entre dois substantivos inócuos. O vocativo clamava em desespero na sua solidão. Os objetos diretos e indiretos comportavam-se como dois ajuizados guris. O papel já estava repleto de signos que só eu entendia. Não precisava ninguém entender tudo aquilo. Ao cabo de vinte linhas, resolvi não mais garatujar, quebrei o cálamo em mil pedaços, o papel picotei-o com minha desprezível adaga. Num ato de total desequilíbrio mental, atirei pela janela o meu velho e amigo cálamo, depois joguei aqueles papeizinhos pela janela e fiz uma chuva de confetes. A chuva de confetes misturava-se à chuva fina que caía sobre os pedestres que passavam. Todos começaram a endereçar os seu olhos para mim. Eu, no décimo segundo andar de meu prédio, homiziava-me atrás das estantes. Aí comecei a atirar também os meus livros pela janela. Os opúsculos e enciclopédias espatifavam-se sobre as cabeças dos transeuntes, que irascíveis achincalhavam-me. Esta foi a melhor forma que encontrei. Lá do alto do meu prédio, eu ria. Eu entendia muito bem o que aquilo queria dizer, e os livros iam saindo pela janela todos enfileirados.

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