ENTREVISTA COM O ESCRITOR ASSIS FURTADO


 

01. Fale de você: onde nasceu? qual formação? onde vive? o que faz?

R. Nasci em Duque de Caxias/RJ. Vivi na Alemanha por um tempo; morei no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Ribeirão Preto/SP; vivo em Araraquara/SP desde 2004 — quando vim cursar Letras na Universidade Estadual Paulista. Para além do colégio, minha educação formal perpassou um curso de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, abandonado no terceiro ano; o supracitado curso de Letras, quando estudei grego e latim (mais grego que latim); e um mestrado em Estudos Literários. Atualmente estou em vias de concluir o doutorado, no mesmo programa — pesquiso poesia barroca. Araraquara me acolheu e aqui pude desenvolver alguns projetos. Ministrei o “Curso de Produção Literária” na Casa da Cultura por sete anos; integrei, como representante da área de Literatura, o Conselho Municipal de Cultura pelos mesmos sete anos (havendo o presidido por cinco); não somente por conta própria, mas especialmente junto à equipe da Secretaria Municipal de Cultura, atuei como produtor cultural, mediador e curador de eventos relacionados à literatura (como saraus, encontros com escritores, oficinas literárias, prêmios literários, mostras e feiras de livros); conduzi uma editora — a Editora Partesã — por cinco anos; e, é claro, compus boa parte das obras que engavetei. Outras, publiquei: foram crônicas e críticas em jornais; contos em dois livros — Morro da Dezembrada (2015) e Carmim (2017) — e numa revista ou outra (impressa ou não); Princesa (2016), uma peça de teatro — que por pouco estreou; e poemas num periódico ou outro (impresso ou não) e em meu Caderno de poesia (2016). Sou professor de Língua Portuguesa na rede pública estadual.


02. Quais são os seus escritores preferidos? Por quê?

R. Em ordem aleatória: Jorge Amado, João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, João Simões Lopes Neto, Rubem Fonseca, Aníbal Machado, José J. Veiga, Fernão Mendes Pinto, Roberto de Mello e Souza e um tanto de anônimos na prosa (também Giovanni Boccaccio, Charles Dickens, Mark Twain, Ray Bradbury, Aldous Huxley, George Orwell, H. G. Wells, Cervantes, Francis Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway); Camões, Carlos Drummond de Andrade, Sousândrade, Jorge de Lima e Castro Alves no verso (assim como García Lorca, Lope de Vega, John Clare, Warsan Shire e parte da poesia atribuída a Gregório de Matos — especialmente a sacra); Nelson Rodrigues no drama (assim como George Bernard Shaw); li muito romance de cavalaria na juventude: memória esta, que preservo com muito carinho; há relatos de viagens, também, de que gosto muito: Hans Staden e a História Trágico-Marítima, por exemplo; Montaigne, Rousseau e Thoreau na ensaística; Vieira na sermonística (assim como John Donne); o Papalagui, Rumi, o Mahabharata; os clássicos da Antiguidade (desde Gilgamesh e a Batracomiomaquia até Orígenes e Cassiodoro); tudo isso me diz alguma verdade sobre a experiência humana que me emociona profundamente — daí que faço este elenco de compositores e de composições. Mas sinto que há mais aonde apontar e que estou injustiçando algum livro na minha estante (como o Kama Sutra, de Vatsyayana, por exemplo).

03. Como é o seu cotidiano?

R. Amo minha mulher, sou atento às necessidades dos três cães e busco me disciplinar escrevendo minha tese, lecionando na Escola, preparando a comida, comungando e exercitando meu corpo. Ainda tento conciliar os diferentes vetores que orientam minha busca pela disciplina. Um desjejum bem servido antes dos compromissos e um sono bem dormido. Uma, duas ou três chuveiradas frias por dia. Estou evitando remédios e vícios — talvez até pare de fumar outra vez. Escrever, que é bom, só quando não tem mais jeito. Acho que estou mais meditativo ultimamente, falando sozinho quando sozinho.

04. Quantos livros publicou?

R. Descontando antologias e publicações doutros autores que editei pela minha malfadada experiência na Partesã, três: os já mencionados Morro da Dezembrada (2015), Caderno de poesia (2016) e Carmim (2017).

05. Quais foram as suas alegrias literárias?

R. Desde muito jovem tomei o gosto por viajar, por isso minhas “alegrias literárias” envolvem as visitas à casa de Mário de Andrade (São Paulo); ao Real Gabinete Português de Leitura (Rio de Janeiro); à casa de Carlos Drummond de Andrade (Itabira/MG); à Capela da Ajuda (Salvador), onde fica o púlpito do qual Vieira proferia seus sermões; e à casa onde nasceu Goethe (Francoforte), entre outros lugares. Participar de eventos literários também é uma oportunidade de viajar e de conhecer novas pessoas — entre elas, autores.

06. Quais foram as suas frustrações literárias?

    R. Ainda não li o Rubaiyat (entre muitas obras que ainda não li).

07. Qual é o seu objetivo na literatura?

R. Escrevo para capturar o tempo. Não é uma atividade lúdica, nem recreativa, nem mesmo terapêutica, muito menos um passatempo — não é uma “massagem nos pés”. Escrever, para mim, é um processo muito doloroso. Venho, portanto, procedendo com cautela de uns anos para cá.

08. Você julga a escrita superior à oralidade? Por quê?

R. De modo algum. São recursos diferentes. A oralidade se transmuta conforme a época, o lugar e as pessoas por quais ela passa. A vantagem da escrita é que ela preserva aquilo que a oralidade teve dificuldade de preservar. Ela captura o tempo. Verba volant, scripta manent, diziam os antigos — e os antigos eram sábios. Mas não reconheço relação de superioridade e de inferioridade entre esses dois recursos. Decifrar uma escrita cujo idioma se transmutou ou mesmo se perdeu também é um desafio e tanto. Em verdade, ouvir o que as pessoas têm a dizer — especialmente quando narram experiências pessoais, casos estapafúrdios ou mentiras deslavadas — quase sempre me traz um forte fôlego à inspiração, às vezes maior do que ao ler o que autores selecionados escreveram. Entretanto não descarto a leitura, jamais: sigo a recomendando.

09. Como você se organiza para escrever?

R. Como mencionei, minha cautela vem me desorganizando nesse sentido de uns anos para cá — mas vamos ver: a parte da escrita vem depois da inspiração e do levantamento das ideias, que são, por completo, outras partes do processo. A coleta de vocabulário, embora seja essencialmente um procedimento investigativo, já pertence, a meu ver, à organização da escrita. Minha pena foi bastante fecunda entre 2010 e 2014, mais ou menos, quando tive condições de cumprir uma rotina de acordar bem cedo, antes da alvorada, fazer meu asseio pessoal, tomar meu café sem açúcar, praticar meus exercícios corporais e me concentrar por umas duas horas à literação: ler poesia em voz alta, pesquisar o assunto que me encrencava o coração e a cabeça e me deixar levar; então esboçar rotas e comentar suas intersecções com os clássicos e, especialmente, com tudo aquilo que eu já havia escrito anteriormente; era bom quando saía alguma coisa no final. Meus três livros surgiram por meio desse processo: a tinta azul quando tudo está em estudo e a tinta preta quando alcanço o texto final. Muita coisa vai para a gaveta. Talvez se eu voltasse a trabalhar sobre uma Remington ou uma Olivetti os resultados desses meus esforços sairiam com mais celeridade. Ou não. Mas desde o Morro da Dezembrada aquela minha rotina se alterou de tal modo que até hoje não fui capaz de recuperá-la por inteiro: às vezes consigo cumprir uma semana ou duas naquele velho ritmo, às vezes não; às vezes experimento outros percursos. De todo modo, o sofrimento é o mesmo — como mencionei, escrever, para mim, é um processo muito doloroso. Aquela rotina ideal me deixou doente, com síndrome do pânico, paranóico. Tenho mais o que fazer do que ficar me medicando, por isso a abandonei e até hoje ainda não me reorganizei. Minha pós-graduação é certamente outro fator que contribui para a desorganização da minha escrita e para a ascenção dos meus sofrimentos. Vai passar.

10. Você quer ser reconhecido? Por quê?

R. Sugiro antes de mais nada uma leitura do verbo “reconhecer” como “conhecer novamente”. O contato com a literatura (também com a oratura) me traz aquela verdade sobre a experiência humana, aquela que me emociona profundamente, mencionada há pouco — e nisso me “reconheço” naquilo que leio (ou que ouço). Esse contato, ou mais especificamente essa experiência de emoção estética, é o momento em que me “conheço novamente”. Nesse sentido, também cultivo a veleidade de provocar algo parecido em meus leitores (e em meus ouvintes). Entretanto há outra interpretação do verbo “reconhecer” como “vislumbrar nos meios de informação e de publicidade”. Isso também é bom, mas não está no cerne das minhas preocupações. Penso que primeiro preciso desenvolver minha capacidade de provocar emoção estética; depois, caso seja bem sucedido, as coisas outras virão.

11. O que é um poeta ou um escritor?

R. “Poetas” e “escritores” são aqueles que dominam determinadas técnicas de organização de palavras: um na forma versificada, outro na forma prosaica. “Bons poetas” e “bons escritores” são aqueles capazes de provocar a supracitada emoção estética em seus leitores. Mas como diria Walt Whitman: to have great poets, there must be great audiences (e também podemos estender tal afirmação aos escritores) — “grandes poetas” e “grandes escritores” precisam de grandes leitores. Leitores estes que reconheçam a grandeza que se dispõe ante seus olhos, corações e cabeças.

12. Todo escritor é vaidoso?

R. Proponho um pequeno silogismo de botequim: se todo escritor é um ser humano e se todo ser humano está sujeito ao pecado da vaidade, todo escritor está sujeito à vaidade. Conheci alguns escritores que demonstravam a virtude da humildade — não muitos, diga-se de passagem —, por isso, empiricamente não posso afirmar que todo escritor seja vaidoso. Mas existe o senso comum, muitas vezes negado por escritores vaidosos, de que todo escritor é vaidoso.

13. Como você lida com o fracasso?

R. Honestamente penso que os conceitos de “fracasso” e de “sucesso” são termos que se aplicam muito bem a empreendimentos comerciais e que cada vez mais as pessoas transportam para suas vidas pessoais. Se você tem uma meta comercial e não consegue alcançá-la num tempo estipulado, é justo que se diga que você “fracassou”. Mas estou com Sêneca e tento me preparar para o pior. Ouço a queixa de muitos autores a respeito de seus livros encalhados e sinto que deles emana uma aura de derrota, um sentimento de fracasso e uma intensa revolta (nem sempre justa, devo dizer). Um livro é como uma mensagem numa garrafa que um náufrago (também encalhado numa ilha deserta) lança ao oceano: um dia alguém pode lê-la. Ou não. A meditação sobre essa possibilidade ilustrada pelo clichê de metáfora que acabo de apresentar talvez seja meu meio de me preparar para o pior. Se não consegui responder esta pergunta, portanto, não vou me sentir um fracassado.

14. Como você lida com o sucesso?

R. (Complementando a resposta anterior.) Me sinto saudável, há comida em minha mesa, há um teto sobre minha cabeça e minha mulher me ama, assim como meus cães: compreendo-me um homem bem-sucedido, alegro-me e lido com isso com gratidão. Mas a pergunta é sobre o “sucesso literário”, especificamente, não? Muitas vezes tive o retorno de leitores e de ouvintes a respeito das palavras que organizei e que neles provocaram emoção estética: em tais ocasiões, compreendi-me um homem bem-sucedido, alegrei-me e lidei com aquilo com gratidão. Foi muito bom — espero merecer aquilo outra vez.

15. Qual é o autor contemporâneo que, de fato, você admira? Seja sincero.

R. Reconheço-me nas obras do poeta Milton Rosendo (autor de azul como um rottweiler) e do escritor Théo G. Alves (autor de por que não enterramos o cão?) porque suas obras me trazem verdades sobre a experiência humana que me emocionam profundamente (o fato de os títulos de seus últimos livros envolverem cães é mera coincidência, que só agora me ocorre). Infelizmente não venho acompanhando a dramaturgia contemporânea, portanto não saberia indicar um dramaturgo contemporâneo que, de fato, sinceramente admiro.

16. Espaço aberto para sugestões de perguntas e palavras finais.

R. Sinto que fui muito sisudo nas respostas desta entrevista. Quero mencionar o excelente cronista satírico contemporâneo Tom Cardoso — o jornalista de cueca. Sinto falta da boa comédia política numa época em que a política tanto argumento fornece à comédia. Castigat ridendo mores, como diziam os antigos. Gostaria mesmo de ler coisas mais burlescas e menos ranzinzas. Não tenho talento para frases motivacionais, portanto, a título de palavras finais, devo dizer: você não pode melhorar seu passado, mas ainda pode piorar seu futuro.

Comentários

  1. Bom reencontrar o Assis Furtado por aqui. Quando nos vimos? Uma única vez, em Araraquara, quando ele organizou um encontro de escritores num espaço cultural junto à ferrovia. Estive lá, conversando com ele e outros escritores numa tarde muito envolvente. Conheci dele alguns contos e achei-o um cara e tanto. Espero ainda poder conversar mais com ele, pois aquele dia foi corrido e nem consegui parar para um boteco com direito a uma cerveja.

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