08/04/2011 

Para aonde estamos indo ?
Eu não tenho autoridade alguma para falar do triste episódio de Realengo; mas eu gostaria de dizer que a relação afetiva, a meu ver, é uma relação que se constrói, sobretudo, na infância. Hoje, vivemos num mundo de inúmeras demandas; queremos heroificar os nossos filhos, sobrinhos; queremos fazê-los vencedores; colocá-los em inúmeros cursos etc; ou quem sabe nos livrarmos deles, terceirizando a nossa educação; já fazemos muito - assim pensamos - se os levamos de carro às escolas ou aos cursos superficiais de inglês, karatê, judô ou qualquer outra coisa que os valha; estamos, na verdade, todos blindados, olhando para os nossos próprios umbigos; não confiamos mais em nossos irmãos, parentes (parentes?), colegas de trabalho, maridos ou em nossas esposas... Temos uma relação superficial com todos; uma relação de fachada. E isso pode ser um desencadeador de tragédias a que vimos assistindo. O sentido de família esfacelou-se; o que une a família é a indiferença, a traição escondida e o orgulho; competimos nos nossos lares, queremos ser os paradigmas para os nossos filhos; queremos ser vencedores - (ser vencedor é ter muito dinheiro e status e ter um ou vários carros bonitos na garagem) -mas não queremos nos preocupar se nosso filho possa se interessar por John Cage, Rimbaud, Hip-Hop ou Mallarmé. Queremos sim os nossos quinze minutos de glória, por isso corremos como loucos; estamos nos vigiando uns aos outros; as nossas amizades são rarefeitas, de face-book, twitter e e-mails (que estejam todos devidamente longe de nós). Por outro lado, as instituições todas ou quase todas falidas; e falidos também estamos todos nós - (professores, educadores, médicos, enfermeiras, psicólogos, psiquiatras, pais, mães, tios, avôs, etc ) - somos meros profissionais atributivos, fazemos aquilo que nos é devido pela atribuição - não que não gostemos do que fazemos; mas é que precisamos seguir certos modelos, que todos já sabemos ultrapassados; vivemos em verdadeiras masmorras; e não temos nenhuma possibilidade de desacorrentarmo-nos dessa perene caverna; os alunos estão aprisionados em sua liberdade ouvindo sobre liberdade (oh, que grande contradição!). Vemos o outro como inimigo; o trabalho é um trabalho (de tripalium - instrumento de tortura) de cárceres disfarçados. Se almejamos por liberdade, por que não a aplicamos na prática? Por que não fazemos da escola e da família um tópos de relação afetiva, aprendizado e liberdade? Eu entendo esses espaços como espaços de trocas de experiências e de aprendizado. O aprendizado se dá mais pela volição própria do aluno/criança/jovem/filho, do que pela desgastada heteronomia não lúdica (ludus). Não confundamos liberdade com libertinagem ou com desfaçatez e baderna. Quando iremos implementar um lugar de liberdade, amor e amizade em nossos espaços públicos ou pessoais? Por que não acreditarmos em formas mais liberais de convivência? Por que persistir em modelos arcaicos que já abominamos e lutamos, quase todos, no passado? Falo em liberdade com responsabilidade e não de presídios com sintomas de futuras tragédias. Ou todos nós, agora, nos conscientizamos... ou vamos ter que chorar eternamente até a nossa lágrima não poder mais secar.

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